Ontem fui dar uma olhada no fórum que pego as legendas do Lost, série que sou fã, assisto todos os episódios e estou acompanhando a terceira temporada, que passa na ABC nos Estados Unidos, quando dei de cara com uma mensagem:
“O site LostBrasil suspendeu a distribuição de legendas em português para os episódios da terceira temporada do seriado de TV Lost após a Sony e a Disney ameaçarem processar os responsáveis pelo endereço.
O contato com o LostBrasil, que reúne a maior comunidade de fãs brasileiros do seriado, foi feito por meio da Adepi (Associação de Defesa da Propriedade Intelectual), entidade que representa os principais estúdios de cinema no país. Segundo Clayton Jorge, advogado da Adepi, a tradução do seriado e distribuição não-autorizadas de legendas violam as leis de direitos autorais.”
E...BANG! Tiro no pé...pior, tiro no seus clientes. Será que a Sony e a Disney não percebem que não dá para tapar o sol com a peneira? Se mandam fechar um site que distribui legendas, abrem-se outros dez. É como ignorar a necessidade do público, a primeira lição básica do comércio. Que tal se a própria Disney se juntasse ao LostBrasil e abrisse um site de venda de legendas a preços populares? Eu pagaria pela minha.
Não quero nem minha comissão pela idéia.
Será que já não estava na hora das empresas de venda de mídia (gravadoras, produtoras e estúdios) pararem de gastar tanto dinheiro com advogados e começarem a perceber que o tempo de explorar e ganhar fortunas de seus clientes acabou? Que o negócio deles precisa ser remodelado e que a internet mudou a forma das pessoas se relacionarem com conteúdo?
Será que é tão duro assim largar o osso?
Será mesmo que é mais simples se virar contra seus próprios clientes? Quem baixa música e vídeos na net é a mesma pessoa que compra CDs, é quem ainda sustenta a indústria deles até hoje. Eu tenho os DVDs originais do Lost, que comprei nas Americanas.com, depois de conhecer o seriado na net, e quero comprar a terceira temporada, quando lançarem. Acredito que isso aconteça com muita gente. Mas as gravadoras preferem fechar os sites que fazem publicidade gratuita do produto deles, sem lucro algum. No mínimo, contraproducente. Eu adoraria gente fazendo propaganda gratuita do meu site.
Que fique bem claro aqui, antes que os nervosos se rebelem e não terminem de ler meu texto, que não apoio a pirataria de nenhum lado. Nem das gravadoras, que esfolam seus clientes e artistas, e que viraram impérios milionários. Nem dos usuários dos programas P2P e torrents que vendem DVDs piratas. Gente que usa e vende o produto alheio sem pagar nem um centavo para quem o produziu. E veja bem, eu disse produziu. Sim, porque o artista, quem de verdade produz a música ou filme, esse sempre é prejudicado, nos dois formatos. Pela gravadora, que cobra taxas infinitas de comissão para a produção e venda dos CDs, e pela pirataria.
Será que ninguém consegue achar um modelo intermediário? Um meio termo que agrade a todos?
Num estudo recente, publicado pela empresa de consultoria KPMG, chegaram a conclusão que as empresas de mídia devem parar de concentrar tantos recursos na proteção do conteúdo digital para procurarem maneiras de ganhar dinheiro com música e filmes digitais se quiserem derrotar a pirataria. Tem muita lógica! A consultoria disse também que a responsabilidade por encontrar novos modelos de negócios digitais cabe aos conselhos supervisórios das empresas e não apenas aos executivos de escalão médio. Com uma perda de receita estimada entre US$ 8 bilhões US$ 10 bilhões ao ano, a questão deveria ser resolvida pelos dirigentes das corporações.
"O que não se vê é um questionamento real dos modelos de negócios", disse Ashley Steel, sócia da divisão de Informação, Comunicações e Entretenimento da KPMG. "Eles se queixam dos Napsters", disse ela, referindo-se ao extinto serviço de troca de música digital condenado por violar leis norte-americanas de defesa dos direitos autorais. "Mas por que os Napsters existem? Por que o mercado os quer?”
Desde que a expansão da tecnologia nos anos 90 alimentou o esforço para colocar música, filmes, espetáculos e livros na web, as grandes gravadoras, estúdios de cinema e TV e editoras mundiais concentraram-se em criar software e hardware que impeça as pessoas de copiar conteúdo digital ilegalmente e revendê-lo.
Totalmente sem sucesso.
Daqui a pouco, vão mandar fechar a internet porque facilita a pirataria. Acabem logo com os Speedys e Virtuas de oito mega, eles são a razão da falência das gravadoras. Lendo assim, chega a ser ridículo. Hipocrisia total. Ninguém tem conexão de oito mega só para baixar e-mails e falar no msn. Acordem! O download de conteúdo digital existe, não adianta tentar tapar o sol com a peneira, nem tentar impedir.
A indústria fonográfica foi a mais atingida, com uma queda dramática nas vendas de CDs ao longo dos últimos anos, enquanto os chamados serviços peer-to-peer na web, no qual as pessoas trocam arquivos entre si, cresceram. Até tentaram lançar sites de download pago de música para combater a troca de arquivos, mas ainda não conseguiram atingir seus objetivos completamente, apesar do relativo sucesso da loja da Apple.
O resumo é que os executivos estão muito mais preocupados em manter a chave do cofre segura do que agradar seu consumidor. Se concentram mais em software de cifragem e outras tecnologias que bloqueiem a pirataria em lugar de tentar encontrar caminhos para chegar antes dos piratas à preferência dos consumidores.
Fecham e processam sites de fãs, achando que estão se protegendo...e apenas estão matando seus próprios clientes. Belo dilema. Permitir ou fechar tudo? Eu que não queria ser dono de gravadora nem estúdio de cinema hoje em dia...a batata tá quente e queimando a mão deles.
Seria ótimo que a indústria da mídia acordasse para o real problema, antes que o problema acabe com ela. Vale lembrar o caso da indústria de vídeo doméstico, que há 20 anos combatia piratas até encontrar maneiras de conseguir lucros do vídeo, apesar da pirataria. Começaram a oferecer produtos bons, por preços justos. Resultado simples: diminuiram muito a pirataria.
Ignorar o que seu consumidor quer é o primeiro passo para você sumir do mercado.
Com dados de: KPMG/Reuters/Folha
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