Eu assisti uma peça semana passada chamada Luis Antonio - Gabriela. Com uma sensibilidade incrível, Nelson Baskerville conta sua história de família e no palco busca a redenção de seus "pecados". Na verdade, todo o argumento da peça serve para justificar suas atitudes e funciona como um pedido de desculpas atrasado ao irmão que era travesti, foi segregado e faleceu longe de todos.
Eu chorei a peça inteira, de soluçar. Aquilo que vi me pegou de um jeito que até hoje, uma semana depois, ainda tenho um pouco do choro engasgado, preso na garganta.
Me identifiquei na hora com a família tradicional e suas obrigações sociais. Eram cobranças intensas, inclusive com castigos físicos, tentando deixar o irmão "diferente" ficar igual a todos os outros na marra. Ele teve que partir para se salvar vivo daquilo tudo. Mudou até de país.
Eu não virei travesti, nem gay, mas minhas escolhas magoaram muita gente. Foi uma grande decepção para a família quando resolvi largar o emprego seguro de herdeiro e me aventurar na música, trabalhar a noite, que era o que eu amava e amo até hoje.
Fui deixado de lado, diminuído, ridicularizado e segregado, nunca de uma maneira transparente, direta, mas sempre de maneira velada, covarde. Nunca nada foi dito na cara.
Sofri muito, mas deixei tudo de lado, não tenho mágoas. Me afastei, sai de casa aos 23 anos, fiz minha vida acontecer do meu jeito e consegui um relativo sucesso profissional nesses últimos 20 anos, na medida das minhas necessidades. No trabalho, não poderia estar mais satisfeito.
Foi no lá teatro que eu descobri a peça que faltava para eu resolver meu quebra cabeça e seguir em frente: me livrar da culpa.
Eu mesmo, desde o começo, tinha preconceito com meu próprio trabalho, sentia culpa de não fazer algo "bonito" e desagradar a família. A culpa, essa maldita, que está aqui até hoje parada na minha barriga.
Todo esse tempo busquei aprovação de todos e inclusive a minha, ao que amo e decidir fazer da vida. Até hoje tenho dificuldades em aceitar elogios em relação a isso, fazer muito bem o que eu escolhi só aumentou a minha culpa. Paradoxo ruim esse, foi a minha maior cagada.
Hoje caiu minha ficha, chega de buscar um modelo que me encaixe em algo perfeito e bonitinho e seja aprovado por isso.
Eu não sou assim, me encontro mais nos desajustados, nas pessoas abertas ao novo e geralmente com as minorias, frequentemente segregadas por preconceitos.
Está na hora de romper com essa culpa de ser diferente, aceitar meu jeito gauche de ser e não mais me sentir mal por não ligar para regras, convenções, datas comemorativas, protocolos, obrigações sociais. Viver assim te deixa mais seguro, mais feliz? Que bom, porque pra mim essas coisas não fazem a menor diferença. Claro que isso vai me custar uns olhares tortos e gente que vive para essas regras magoada comigo, mas não tem mais sentido me relacionar com pessoas que esperam de mim que eu seja o que eu não sou.
É sofrimento para os dois lados.
Vou lá, procurar minha turma, a mesma turma que um dia eu fui ensinado a ter preconceito.
Meu modelo é que estava errado, mudarei de modelo.
Se te magoei por ser quem sou, me desculpe. Se não fiz o que você esperava de mim, me desculpe, se não satisfiz suas expectativas, me desculpe, não foi com maldade, eu simplesmente não sou quem você queria que eu fosse. Seu problema comigo agora é só seu.
Sai do armário e deixei a culpa lá dentro.
Não vamos mais precisar dela né?
sexta-feira, 10 de junho de 2011
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