sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Luto

Acho que pela primeira vez na vida eu perdi uma pessoa realmente querida.

Meus dois avôs morreram cedo, algumas pessoas próximas, como meus tios, alguns parentes de segundo grau se foram, mas nunca senti muito a dor da falta deles. Sinto porque foram, claro, eram pessoas que eu gostava, mas que não participavam ativamente do meu cotidiano, não compartilhavam dos meus pensamentos e principalmente não estavam disponíveis para mim.

A pessoa querida que perdi estava comigo sempre que precisei e vice versa. A relação de troca, saudável, ajudava o crescimento mútuo e era uma refêrencia de carinho e amor.

Foi com ela que descobri a minha aptidão para a música e foi ela que me ajudou a encarar todas as dificuldades que enfrentei no começo da carreira com palavras de apoio.

Foi com essa pessoa querida que me conheci melhor, cresci ouvindo seus conselhos e, com o tempo, aprendi a aconselhar. Aprendi a expor meus pensamentos, aprendi a ser assertivo, aprendi a ser livre.

Me ensinou a plantar sementes, espalhar o bem e viver no amor.

A cumplicidade nos segredos, as risadas nas conversas diárias, a troca de conhecimento.

Tudo muito agradável, intenso e produtivo para os dois. Uma amizade verdadeira.

Até o dia que a pessoa se foi.

Adeus.

Como toda pessoa que morre, não houve aviso antes, não tem explicação do porque nem satisfações, ela simplesmente se foi.

Nessa hora vemos que tudo que aparentemente está sob controle, seguro e certo é apenas uma ilusão criada na nossa cabeça. Não controlamos nada, nessa vida nos foi dado apenas o direito de viver e sentir o agora.

Depois da perda, resta apenas a saudade, as lembranças carinhosas dos bons momentos, a vontade de ter a pessoa de volta ao seu lado, a dor da perda e até uma incompreensão dos motivos.

Porque? Porque? Me sobram as interrogações.

Sem querer, a perda de alguém querido nos faz refletir sobre nossa própria vida, nossos caminhos e nossas escolhas. A perda nos obriga a refletir.

Aprender a lidar com a perda é dolorido, mas necessário e parte da vida.

A pessoa se foi e não há o que fazer a não ser viver com isso.

O fato dela estar viva só torna isso tudo ainda mais difícil.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Up In The Air

Hoje fui assistir o filme "Amor sem escalas" com George Clooney. Se você ainda não viu o filme, pare a leitura deste texto agora, pode estragar sua experiência.

Ryan Bingham, personagem de Clooney, é pago para viajar pelos Estados Unidos despedindo funcionários de empresas afetadas pela crise. Morador de aeroportos, carrega sua vida em uma mala de mão e tem como meta juntar 10 milhões de milhas no seu cartão da American Arlines. Aparentemente feliz com sua vida, eficiente no que faz, se vê ameaçado por uma jovem que vende ao seu chefe um método de fazer as demissões sem viajar, direto do escritório, usando vídeo conferência. Nesse trecho do filme, Ryan, supostamente desumano e frio, mostra sua face humana nas demissões e questiona o método frio de demitir por computador.

O tempo todo o filme mostra o conflito presente em todos nós: equilibrar o lado humano, sentimental e amoroso com o lado caçador e negociador, que precisamos desenvolver para sobreviver e pagar as contas.

O seu jeito de viver livre, sempre viajando e sem residência e nem parceira fixa é questionado por sua família e por quem convive com ele e para piorar, quando ele realmente se interessa amorosamente por uma mulher, descobre, da pior maneira, que ela já é casada e com filhos e o usa como fuga ao tédio do casamento.

Gostei muito que o final do filme não resolve o conflito nem diz qual lado é o melhor ou certo para nós, como a maioria dos filmes de Hollywood tenta fazer.

Realmente não há uma resposta definitiva para esse dilema.

Cada um deveria ter a liberdade de escolher seu caminho, mas acabamos cercados de regras que anulam a nossa individualidade e nos forçam a caber numa forma única. Você será aprovado pelo grupo se conseguir se enquadrar nessa forma estabelecida, caso contrário, será punido com a culpa e a exclusão social.

Neste formato padrão, as relações amorosas acabam em segundo plano, prevalecem as relações sociais. Sobram pessoas cada vez mais carentes e solitárias, inseguras, buscando aprovação que nunca virá.

Para mim, a vida é bem mais simples do que isso. Acho que o que todo mundo no fundo quer é ser amado e amar de volta, por isso me interessei tanto pelo desafio mostrado no filme.

Acredito que não conseguimos viver sem os outros, crescemos e vivemos nas relações, mas precisamos equilibrar também nesse processo coletivo o nosso processo como indivíduos únicos que somos.

Belo desafio que é esse de viver bem com essas duas realidades.