sexta-feira, 10 de junho de 2011

A merda da culpa

Eu assisti uma peça semana passada chamada Luis Antonio - Gabriela. Com uma sensibilidade incrível, Nelson Baskerville conta sua história de família e no palco busca a redenção de seus "pecados". Na verdade, todo o argumento da peça serve para justificar suas atitudes e funciona como um pedido de desculpas atrasado ao irmão que era travesti, foi segregado e faleceu longe de todos.

Eu chorei a peça inteira, de soluçar. Aquilo que vi me pegou de um jeito que até hoje, uma semana depois, ainda tenho um pouco do choro engasgado, preso na garganta.

Me identifiquei na hora com a família tradicional e suas obrigações sociais. Eram cobranças intensas, inclusive com castigos físicos, tentando deixar o irmão "diferente" ficar igual a todos os outros na marra. Ele teve que partir para se salvar vivo daquilo tudo. Mudou até de país.

Eu não virei travesti, nem gay, mas minhas escolhas magoaram muita gente. Foi uma grande decepção para a família quando resolvi largar o emprego seguro de herdeiro e me aventurar na música, trabalhar a noite, que era o que eu amava e amo até hoje.

Fui deixado de lado, diminuído, ridicularizado e segregado, nunca de uma maneira transparente, direta, mas sempre de maneira velada, covarde. Nunca nada foi dito na cara.

Sofri muito, mas deixei tudo de lado, não tenho mágoas. Me afastei, sai de casa aos 23 anos, fiz minha vida acontecer do meu jeito e consegui um relativo sucesso profissional nesses últimos 20 anos, na medida das minhas necessidades. No trabalho, não poderia estar mais satisfeito.

Foi no lá teatro que eu descobri a peça que faltava para eu resolver meu quebra cabeça e seguir em frente: me livrar da culpa.

Eu mesmo, desde o começo, tinha preconceito com meu próprio trabalho, sentia culpa de não fazer algo "bonito" e desagradar a família. A culpa, essa maldita, que está aqui até hoje parada na minha barriga.

Todo esse tempo busquei aprovação de todos e inclusive a minha, ao que amo e decidir fazer da vida. Até hoje tenho dificuldades em aceitar elogios em relação a isso, fazer muito bem o que eu escolhi só aumentou a  minha culpa. Paradoxo ruim esse, foi a minha maior cagada.

Hoje caiu minha ficha, chega de buscar um modelo que me encaixe em algo perfeito e bonitinho e seja aprovado por isso.

Eu não sou assim, me encontro mais nos desajustados, nas pessoas abertas ao novo e geralmente com as minorias, frequentemente segregadas por preconceitos.

Está na hora de romper com essa culpa de ser diferente, aceitar meu jeito gauche de ser e não mais me sentir mal por não ligar para regras, convenções, datas comemorativas, protocolos, obrigações sociais. Viver assim te deixa mais seguro, mais feliz? Que bom, porque pra mim essas coisas não fazem a menor diferença. Claro que isso vai me custar uns olhares tortos e gente que vive para essas regras magoada comigo, mas não tem  mais sentido me relacionar com pessoas que esperam de mim que eu seja o que eu não sou.

É sofrimento para os dois lados.

Vou lá, procurar minha turma, a mesma turma que um dia eu fui ensinado a ter preconceito.

Meu modelo é que estava errado, mudarei de modelo.

Se te magoei por ser quem sou, me desculpe. Se não fiz o que você esperava de mim, me desculpe, se não satisfiz suas expectativas, me desculpe, não foi com maldade, eu simplesmente não sou quem você queria que eu fosse. Seu problema comigo agora é só seu.
 
Sai do armário e deixei a culpa lá dentro.

Não vamos mais precisar dela né?

sábado, 21 de maio de 2011

Abraçado com a morte

Essa semana tive novamente contato com a morte de uma pessoa próxima. O avô das minhas filhas faleceu aos 61 anos, de enfarto. Era uma pessoa amorosa, gigante de tamanho e de coração, sensível, muito querido e certamente especial, dessas pessoas que não se encaixam muito no sistema caçador do mundo atual.

No começo desse ano, perdi minha mãe, que tinha 61 anos, depois de quase dois anos sofrendo com um câncer muito agressivo. Na hora que ela se foi, por ironia do destino, já que não estávamos muito próximos,  somente eu estava ao seu lado no hospital. Ela faleceu lentamente nos meus braços, senti sua respiração parar, seu coração ir parando lentamente, suas feições foram se alterando e, para quem acredita, senti sua energia deixando seu corpo, como algo que literalmente abandonasse o casulo e fosse pro ar.

Algo não morreu ali.

Esse mistério da morte, presente diariamente nos meus pensamentos, principalmente neste momento, me faz sempre pensar sobre o sentido da vida. Já discorri sobre esse tema em outro post e ainda mantenho minha opinião. A morte, essa inevitável, única certeza que temos, só me deixa ainda com mais vontade de viver minha vida de algum modo produtivo.

Não sigo religião alguma, não temo o inferno nem acho que vou pro céu se fizer meu dever de casa, mas sigo uma linha positiva, fazer o bem, ajudar o próximo e repassar conhecimento que me foi útil, sem distinção nem preconceitos. Não o faço por grandeza, nem bondade, nem algo que possa elevar meu ego e minha categoria de cidadão, o faço porque é o que faz sentido para minha vida.

Tenho uma visão particular da morte, não tenho medo de morrer. A única coisa que faço questão é de estar pronto para morrer a qualquer minuto, sem deixar pendências aqui. Sem mágoas, sem rancor, sem amor por viver, sem coisa pra fazer, nem coisas por dizer. Tudo que eu posso fazer e que só depende de mim, eu faço. Soa como uma coisa meio egoísta, e talvez seja mesmo, mas não faria sentido viver de outra maneira.

Não guardo nada para viver na próxima vida, não sou apegado a nada, livre de tudo e de todos. Sofro com as perdas, mas não as carrego comigo.

Não vejo essa vida como o sacrifício nobre que devemos fazer para alcançar a recompensa superior. Essa vida eu vivo aqui mesmo.

No dia em que eu me for, haverá festa. Estarei lá, abraçado com a morte, comemorando cada dia da vida que tive, cada amor que vivi intensamente e cada pessoa que cruzou por mim e me fez ser quem eu sou.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Intensamente superficial

Espreme, espreme mais....ah, está apertado, estou quase entrando, mas está apertado, empurra....

Ali está você, se esmagando para poder caber na forma padrão.

Queremos caber.

A pressão para que viremos um só grande grupo é gigante. Temos que saber trabalhar em equipe, conviver saudavelmente com a sociedade e a família, aceitar todos os tipos de ideologia, todas as religiões e escolhas sexuais. Isso sem contar a aparência única, a forma física ideal, as roupas de grife.

Todo mundo politicamente correto e magro.

Eu até entendo que as pessoas se preocupem com a minha saúde quando se incomodam com a MINHA barriga, mas se isso fosse mesmo verdade, pediriam meu exame de saúde, como fez o meu médico. Barriga nem sempre é sinal de saúde ruim.

Na realidade, o que vemos acontecer é que, na maioria das vezes, o diferente acaba se destacando de maneira ruim, geralmente com inferioridade. A pessoa fora do padrão é excluída do grupo. Para fugir disso, do cada vez mais cruel bullying, o que mais se vê são pessoas se anulando em troca de amor e reconhecimento.

O que eu mais tenho visto no twitter é gente carente, de todas as formas. Gente que no fundo está buscando no outro o que não achou em si mesmo, como se isso fosse possível. Querem companheiros amorosos, mas só os bonitos e enquadrados socialmente servem.

Famosos, por razões obvias, são os mais desejados.

Cheios de inseguranças, medos e incertezas, as pessoas querem aprovação. Na dúvida, ninguém mais paga pra ver, não se arriscam mais, é mais fácil sair correndo. Acabam escolhendo o caminho medíocre, porque nele conseguem a ilusão de aceitação e de controle.

Todo mundo buscando marido/esposa...e não amor. Chancela social virou prioridade em detrimento ao sentimento.

Não me espanta a quantidade de carentes.

No fundo, ter ideias próprias, defender seus direitos e bancar ser fora do padrão, além de fortalecer a auto-estima, enriquece os relacionamentos, enriquece a troca. Não tem o que trocar se só buscarmos o mesmo sempre.

Nesse mundo, cada vez mais social, baseado em aparências, intensamente superficial, para conseguir um pouco de amor, correr riscos ainda é a única saída.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Férias do Twitter

Sou usuário de redes sociais, mas só posto socialmente.

Dou uma tuitada aqui e ali, em média quatro vezes ao dia. Meu Facebook é pouco usado, geralmente mais para divulgar algum evento ou novo local que vou tocar como DJ.

Costumo fazer check in no Foursquare, conta que abri, fechei e reabri recentemente, incentivando os amigos a me adicionarem e dividirem comigo sua localização.

Meu Tumblr só serve para juntar imagens "educativas".

Tenho perfil no Orkut e sou dono de comunidades com mais de doze mil participantes, mas entro raramente, só para dar uma olhada no que está acontecendo.

Posto minhas fotos pessoais no Instagram e no Twitpic, com uma certa regularidade.

Essa semana, resolvi fazer um teste comigo mesmo: sai de férias do trabalho e de quebra, resolvi que iria sair de férias de todas as redes sociais. Pensei comigo mesmo:  vai ser moleza, uma semana só, vai ser fácil.

NÃO FOI.

Fui para um lugar muito bonito, cheio de paisagens e visuais incríveis para tirar fotos lindas sem esforço.

Queria mostrar o quanto minhas férias foram perfeitas, enquanto metade da minha timeline provavelmente reclamava do trânsito e do excesso de trabalho (ou da falta de tempo, sono, sexo). Confesso que por muitas vezes eu tive vontade de fazer algum comentário, postar uma foto arrebatadora do pôr-do-sol laranja no horizonte ou do prato de cheio de camarões na minha frente, mas eu resisti.

Depois de uns três dias distante, comecei a ler a minha timeline regularmente, toda noite. Não consegui ficar mais tempo sem ler. A vontade de responder alguns posts era grande, mas também não o fiz. Fiquei sabendo de várias notícias, resultados de BBB, jogos de futebol e curiosidades. Ri de várias piadas. A leitura de pessoas que escolhemos seguir é sempre interessante, mas continuei sem postar nada. Queria ver o resultado dessa distância em mim.

Nada como uma outra perspectiva para termos uma outra visão.

A distância que consegui com a postura de somente leitor me possibilitou ver o quanto reclamamos, falamos e xingamos sem necessidade: "Ei, olha eu aqui sem tempo pra nada", "olha aqui meu chefe me dando uma bronca", "olha aqui minha namorada me enchendo o saco", "olha meu cachorro que fez xixi no tapete". Tudo isso poderia ser traduzido em uma só frase: "Ei, olha um pouquinho pra mim". Todo mundo ali, só pedindo um pouco de atenção.

Todos olhamos e queremos ser olhados de volta. Como não escrevi nada, ninguém me respondeu nada. A sensação de não ter o feedback das pessoas foi bem ruim, acho que é isso o que mais me vicia no twitter. A interação, geralmente imediata.

Algumas pessoas sentiram minha falta e eu, falta delas. Falta do contato diário e não invasivo, que é muito bom. De certa forma, é uma maneira de saber como as pessoas que te interessam estão e o que estão fazendo, sem ter que ficar metendo o nariz na vida delas, elas contam o que querem que você saiba e todos FICA feliz.

No final, percebi que eu estou bem mais dependente disso tudo do que podia imaginar. Ficar uma semana sem postar nada foi um belo exercício de controle do ego, principalmente nessa rara semana de férias.

Analisar cada sensação que tive ao reprimir a vontade de postar foi bem interessante. Recomendo a todos essa experiência.

Uma semana somente, fora das redes sociais e garanto que você vai ver tudo de outra maneira.

segunda-feira, 14 de março de 2011

A hora do perdão

A vida não foi justa com você. Você estava tão bem, vivendo tranquilamente e bem nessa hora aconteceu essa tragédia que estragou sua vida, te trouxe problemas, consequências para o resto dos seus dias.

Essa história serve para você e serve para qualquer pessoa viva na face da terra. Todos nós temos nossas pequenas tragédias.

Gente que perde uma perna, um braço, um parente querido, perde todo dinheiro, perde a liberdade, perde o rumo da vida. Perdas acontecem para todos que tem alguma coisa ou alguém para perder. São inevitáveis, pequenos avisos do mundo para nos lembrar que estamos aqui por tempo limitado, que as coisas não são eternas, incluindo nossa própria vida.

Você se recusa a aceitar, não quer perder o controle, mas a única coisa que consegue é se magoar diante de tantos planos e expectativas.

Culpa o outro pela sua dor, pela sua dificuldade, pelo seu dissabor. Se não fosse isso, você seria feliz, com certeza, é o que repete a si mesmo sem parar.

Como seria minha vida se isso não tivesse acontecido? Seria bem melhor? Será que só seremos felizes se tudo estiver perfeito como um comercial de margarina?

Eu já vi gente com todo tipo de deficiência superar limites e vencer nos seus sonhos, mendigos que viraram ricos, cadeirantes que fazem atletismo, doentes que se curam de doenças incuráveis. Superações diárias de gente que tinha tudo para reclamar de sua vida.

Ficamos fechados em nossas pequenas misérias, reclamando que a vida acabou porque a unha está encravada, reclamando dos outros, reclamando de tudo, mas no fundo somos os únicos responsáveis pela nossa felicidade. Assuma a responsabilidade da sua.

Perdoe os outros e principalmente perdoe a si mesmo por tudo de ruim que te fizeram. A energia que você gasta para reclamar de tudo é a mesma que gastaria pra viver feliz. Perdoar exige generosidade, compreensão e principalmente atitude.

Ser positivo é uma questão de escolha.

Para ver as coisas de uma maneira positiva, precisamos querer, todos os dias, um dia de cada vez.

As coisas que nos acontecem, mesmo não tendo aparente função, no fundo são as coisas que formam nosso caráter e nossa maneira de encarar a vida.

Chegou a hora do perdão, perdoe a si mesmo e agradeça por estar onde está. Agradeça que a vida lhe colocou obstáculos na medida em que pode lidar, resolver e superar.

Agradeça também tudo de bom que você tem. Você cresce no interior, cresce como ser humano.

Sem mágoa, sem culpa, sem dor.

Eu me perdôo e você?