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quinta-feira, 10 de junho de 2010

Morreram os príncipes

Em 1937, sua avó conheceu seu avô, apresentados pela família de ambos. Quando começaram a namorar, eles só podiam pegar na mão um do outro, no sofá da sala. Trocavam poesias por carta e sua avó mantinha a virgindade como um troféu ao seu futuro único marido, como prova de sua pureza e verdadeiro amor, enquanto o pai do seu avô o levava pra conhecer o sexo na casa de tolerância mais próxima.

Hoje em dia, muita coisa mudou. Ninguém mais deixa de casar porque a noiva não é mais virgem, ninguém escreve mais cartas de amor em papel ou casa com parceiros que sua família escolheu para você, mas nos relacionamentos ainda sobram ranços dessa educação machista e baseada na castração religiosa. Ainda insistimos no modelo dos contos de fada, do casamento eterno com a esposa perfeita, a princesa, a dama, fiel, carinhosa, boa mãe, abnegada dona de casa e devota ao marido, o príncipe perfeito, o rico dono do cavalo branco e provedor do castelo.

Inconscientemente os livros infantis, as novelas e os filmes reforçam a ligação entre a felicidade e a aceitação social para a mulher que casa com seu príncipe. Se tiver filhos com ele, ainda melhor.

Todo mundo quer encontrar um parceiro, o que é ótimo, mas esquece de focar o amor e parte para o romance, ai vive buscando na vida o que leu nos livros de princesas. Nesse modelo antigo, a mulher é que sofre mais, fica tempos sem fazer sexo e na maioria das vezes, quando o faz, sente-se insegura e usada.

A mulher romântica vive correndo atrás da sua aceitação social, se esforça para manter o corpo dentro do padrão imposto, gasta muito com roupas de grife como passaporte de status social e tem que administrar seus desejos para que não seja julgada ou taxada de fácil. Enorme conflito para uma pessoa que tem sentimentos, desejos e vontades próprias.

Em sociedade, ninguém pode ser autêntico. Acabam todos iguais e previsíveis, fora de sua real natureza e geralmente infelizes.

A pessoa percebe que está infeliz, percebe onde está o problema, mas ao mesmo tempo que sofre com isso, sofre também com a decisão de abandonar modelo que viveu a vida toda, tudo o que aprendeu como "certo" na infância.

Vivemos hoje a quebra desse modelo romântico, hipócrita, machista e baseado no consumo.

Morreram os príncipes e agora as princesas trabalham fora.

Novas formas de amor se apresentam, novos padrões se revelam.

Essas mudanças levam tempo, às vezes anos. Quanto tempo faz que a virgindade deixou de ser um valor essencial para o casamento? Para algumas pessoas, mesmo hoje em dia, isso ainda é importante, calcule.

As transformações são lentas, sofridas, trabalhosas.

Como eu disse outro dia para duas amigas, uma convicta solteira e outra recém-casada, não existe um formato certo, o estado perfeito. O importante é você não estar de um lado querendo estar do outro. O segredo é viver o amor de maneira autêntica com o que você acredita de coração, feliz com sua escolha.
 
A chance de pessoas autênticas manterem um relacionamento longo e saudável é bem maior. A felicidade e o prazer nessas relações são notórios. Ser autêntico consigo mesmo geralmente exige o esforço de viver em segredo e longe do julgamento social, mas acaba valendo muito a pena pela intensidade e profundidade da relação.