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quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Sociedade Anônima

"Certa manhã de inverno, uma formiguinha saiu para o seu trabalho diário.
Já ia muito longe a procura de alimento, quando um floco de neve caiu e prendeu o seu pezinho.
Aflita, vendo que não podia se livrar da neve, iria assim morrer de fome e frio, voltou-se para o sol e disse:
- Ó sol, tu que és tão forte, derrete a neve que prende o meu pezinho!
E o sol indiferente nas alturas, falou:
- Mais forte do que eu, é o muro que me tapa."

Ouvindo essa historinha da Coleção Disquinho quando era pequeno, lembro que fiquei muito impressionado com a cadeia de pessoas que uma simples formiga precisava movimentar para chegar a quem de fato ia tirar o pezinho dela preso na neve. Ninguém se declarava capaz e iam jogando a culpa em algum superior.

Depois de apelar à morte, ao homem, ao cão, ao gato, ao rato e ao muro, que tapava o sol, que derreteria a neve e desprenderia seu pezinho, teve seu pedido aceito por Deus, que ouve todas as preces. Ele lhe sorriu, estendeu a mão por cima das montanhas e ordenou que viesse a primavera e finalmente a neve derreteu.

Hoje em dia, em nome de um sistema altamente blindado que chamo de "sociedade anônima", a cadeia de comando se perde quando estamos chegando perto de "Deus" e ficamos sem ter para quem apelar.

Quando sua internet ou telefone saem do ar, você liga pra reclamar e a atendente responde que não poderá resolver o problema porque está sem "sistema", essa entidade obscura que tomou conta de todos os atendimentos ao consumidor.

- Senhor, está sem sistema, não posso fazer nada senhor, algo mais senhor? Como robos, altamente especializados na tarefa de repetir scripts, nossos atendentes esqueceram que ainda são gente.

Essa realidade baseada em sistemas desbanca o indivíduo para nos transformar em um grupo de pessoas que agem como se fossem um só, pulverizando assim as responsabilidades pessoais. Passamos a lidar com a tal da pessoa jurídica, os anônimos da sociedade.

A culpa não é mais de alguém, mas sim de alguma coisa e coisas não tem essa responsabilidade.

Se telefone não funciona, culpa da operadora, uma gigante com milhares de pessoas que trabalham lá, mas que só resolvem mesmo seu problema quando você ameaça cancelar a linha. Não era melhor atender diretamente a pessoa, antes que ela cancelasse o serviço?

Apagão elétrico? Estragou tudo na geladeira? Queimou seu DVD? Perdeu trabalho? Basta entrar com sua reclamação na justiça (outro ser anônimo) e esperar que resolvam algo a seu favor. Nem reclamar direto a quem te presta serviço podemos mais, agora precisamos de intermediários, o que torna a coisa toda ainda mais fria.

Estamos cada vez mais impotentes diante dessas grandes entidades chamadas corporações, sem opção quando se trata de serviços públicos e escravos desse tal "sistema".

Estamos cada vez menos pessoais, cada vez mais anônimos.