Meu pai, tirando a minha infância, nunca foi uma pessoa muito presente fisicamente na minha vida. Falei mais com ele por telefone ou internet do que ao vivo.
Separou-se da minha mãe e foi se aventurar no norte do país, abrindo negócios em Rondônia. Também trabalhou com contratos de terra no Acre, coisa que, aparentemente, fazia e faz muito bem. Como advogado formado pela São Francisco, nunca seguiu carreira de verdade, tem no sangue de origem armênia o lado comerciante. Armênio já nasce fazendo negócios, se deixar, vende o berço.
Sempre o vi como uma pessoa muito inteligente, meu gosto pela língua portuguesa escrita e falada corretamente vem dele, o jeito para todo tipo de trabalho manual também. O sonho dele sempre foi ter uma oficina, coisa que meu avô não achava muito adequado. Até hoje reclama disso e deve ser um dos motivos de nunca ter reclamado do meu trabalho de DJ. Ele sentiu na pele o que é ter que abandonar uma vocação para agradar a família.
Meu gosto musical e a paixão pela tecnologia também foram diretamente influenciados por ele. Como estava sempre viajando pelo norte, sempre trazia de Manaus as maiores novidades em aparelhos de som. Na casa dele, sempre o som era o melhor e mais potente que existia e com ele sempre ouvi muitos sucessos da disco music. Lembro de ouvir discos da Donna Summer no máximo volume nos últimos modelos de caixas de som da Technics. Eu amava aquilo. Com o tempo comecei a mexer sozinho, gravar minhas fitas e aprender mais sobre como aquilo tudo funcionava. Foi amor ao primeiro remix.
Sempre andava em carros mega esportivos, ele chegou a ter uma Ferrari, num momento de devaneio. Aprendi a dirigir com ele, fazendo barbeiradas em um Passat TS e ele nunca ficou nervoso ao meu lado. Ensinando com calma e paciência, peguei segurança rápido e dirijo até hoje pensando no que ele me dizia: "Meu filho, o problema de dirigir é que nunca está sozinho na rua, tem que dirigir por você e pelos outros". Outra coisa que ele sempre falava é que os acidentes acontecem mais quando estamos mais devagar ou mais rápido do que os outros carros. Toda vez que saio pra rua, lembro das palavras dele e desde os 18 anos que não bato o carro.
Aprendi com meu pai a apreciar as mulheres de maneira intensa e respeitosa. Ele sempre teve uma visão apurada para descobrir mulheres bonitas, minha mãe foi uma delas. Temos tanta intimidade nesse assunto que já chegamos a conversar sobre detalhes que nem meu melhor amigo sabe. Minha postura na conquista e o jeito cavalheiro, servil e gentil vieram dele. As mulheres que eu me relacionei sempre repararam nisso. Eu nasci para servi-las, assim que eu aprendi.
Apesar de conquistador, meu pai nunca foi muito bom em separar mulheres interesseiras das mulheres com boa intenção e já penou muito com isso. Uma das ex mulheres o levou literalmente à cadeia por dinheiro, o que ele encarou como uma aula...para mim. Dizia que se o que ele passou servisse como aprendizado, já estaria feliz. Serviu, e muito.
Uma curiosidade que ele me disse uma vez, olhando para uma mulher que usava uma corrente no tornozelo, foi para estar sempre atento a isso. Mulher com esse adereço sempre tinha algo. "Ai tem, meu filho!" Nunca me disse exatamente que "tinha" ali, mas eu entendi, com o tempo, exatamente o que era.
Em Búzios, fomos a uma boate juntos, uma turma muito grande de amigos dele, alguns eram sócios do lugar. Eu, mega animado, apontei para um grupo de três mulheres lindas dançando e disse que ia falar com elas. Ele me puxou pelo braço: "Filho, mulheres muito bonitas em turma? Nem perca seu tempo, não querem nada com homem, estão competindo, não estão a procura de nada de verdade. Escolha sempre uma dupla de meninas que uma delas é visivelmente menos atrativa". Nunca falhou.
Uma outra coisa simples que ele dizia e que sempre lembro é viver sem brigar com os ditados populares. "Filho, se esses ditados populares resistem a tanto tempo e tanta gente falando, é porque são sábios". Como tudo que ele disse, seguindo os ditados populares, toda regra tem sua exceção.
Nasceu em família rica e nunca soube bem lidar com a perda do status que veio junto com a falência dos negócios do meu avô, que morreu em seguida e ainda deixou dívidas aos três filhos. Minha infância foi mágica, eu era o único a ter um mini carro a gasolina do bairro e andava de bicicleta dentro do meu quarto. A casa que moramos era incrível, o quintal gigante e sempre tínhamos animais de estimação para cuidar. Tenho só boas lembranças desse período.
Ele sempre amou cachorros e ama até hoje, tem vários na casa que mora, chega a chorar quando algum esta doente.
Aprendi com ele nomes de doenças e exames que nunca vou usar na minha vida, ele é o campeão do exame médico, hipocondria total, adora uma consulta. Eu acho graça disso tudo. No fundo, sua relação com doenças é tão caricata que é divertida. Detalhe, ele nunca tem nada, nem gripe.
Tenho muita saudade e sinto falta do meu pai por perto. Tive que aprender na marra a não ter a quem recorrer na hora do aperto com meu trabalho, já que minha mãe nunca aprovou o que faço. Ele continua morando longe e acompanhando minha vida à distância. Quando meu tio morreu, ele chegou para o enterro com um dia de atraso. Por causa disso, acaba sempre sendo o último a saber das coisas, já que não faz parte do meu dia-a-dia, mas sinto o carinho dele o tempo todo comigo.
Se ele estivesse agora ao meu lado, ganharia um abração de meia hora, um beijo gigante e saberia pela milésima vez o quanto é querido e amado.
Te amo meu pai!
terça-feira, 23 de novembro de 2010
sexta-feira, 5 de novembro de 2010
E foram felizes para sempre...
No formato atual dos relacionamentos, baseado no modelo romântico, cria-se a expectativa que está no outro a responsabilidade pela sua felicidade. Buscamos no outro as promessas de amor eterno, exclusividade no desejo e a complementação das necessidades.
Algo como almas gêmeas que se encontram e se fundem em um só novo ser. Não me surpreendem casais que acabam fazendo um perfil único nas redes sociais, renunciando sua individualidade para viver essa nova entidade que criaram ao se unir. Queremos do outro a nossa garantia de segurança.
Vivemos muito tempo sob uma grande repressão, a culpa pelo prazer e a descriminação da felicidade sem função social. Estamos caminhando lentamente para uma mudança nesse aspecto, tenho certeza que a criança que nasceu hoje terá relações sociais e amorosas diferentes das nossas, da mesma forma que ninguém mais deixa de casar hoje porque não é virgem. As coisas evoluem.
Ainda achamos o casamento uma coisa natural, mas temos que lembrar que o formato das relações são apenas construções sociais, não se baseiam em sentimentos, mas sim na capacidade de provedor do marido e no crescimento e organização da sociedade. Tradições islâmicas, por exemplo, aceitam a poligamia normalmente. O Corão determina que um homem pode ter até 4 esposas, mas somente se puder sustentá-las e tratá-las igualmente.
Cada país e cada cultura tem a sua regra padrão para relacionamentos sociais, mas, como brilhantemente resumiu Robert Happe, após suas viagens e pesquisas de anos sobre esse assunto, em vários lugares do mundo, todo ser humano é igual e o que deseja, independente de sua cultura ou costume, é amar e ser amado.
Na realidade, estamos expostos a diversos tipos de amor, não excludentes, de diferentes intensidades e formatos. O amor, em um sentido amplo, o amor entre parentes, entre amigos, tem importância porque faz com que o indivíduo se sinta menos desamparado.
Amamos nossos familiares, nossos amigos, nosso trabalho, nossos animais de estimação, enfim, a lista é grande. São vários amores, acontecendo simultaneamente. Por exemplo, amar meu pai não exclui também amar a minha mãe. Você pode me responder, mas eles são diferentes, são duas pessoas com funções diferentes na sua vida, por isso é possível amá-los ao mesmo tempo.
Eu te respondo: você tem razão. São diferentes, assim como são diferentes as pessoas que possa me relacionar amorosamente como homem-mulher, e claro, uma não impede o amor a outra.
O problema para o parceiro mal resolvido é que essa possibilidade de vários amores acaba gerando o ciúme, o medo de perder, o medo de ser preterido. A insegurança, quando no extremo, gera ciúmes de tudo e todos que a pessoa julga ter posse. Não tem gente que tem ciúme até de amigo?
Temos essa capacidade nata de amar várias coisas e pessoas ao mesmo tempo. Amar comer mousse de chocolate não me impede de amar comer Strogonoff. Tudo tem sua hora certa.
Amar muitas pessoas ao mesmo tempo é perfeitamente lógico e natural, mas não é aceito como uma coisa “normal” no amor romântico, onde temos que escolher uma só pessoa, essa é a regra aceita socialmente no Brasil e que nos foi condicionada desde pequenos, por diversas fontes.
Fechamos as nossas relações de amor em categorias, amigo não serve pra sexo, família não serve como amigo e assim por diante. Estamos falando aqui das regras, não das existentes exceções.
Mesmo sem dar conta, perdemos tempo precioso procurando o par ideal romântico, quase sempre inexistente e acabamos deixando de lado o que realmente importa: AMAR E SER AMADO.
Na ilusão de encontrar ouro no final do arco iris, saímos correndo ou abandonamos qualquer possibilidade de viver um amor que não seja o tal prometido nos livros e comerciais de margarina, na certeza que a felicidade estará em uma outra pessoa que me completa, minha alma gêmea.
Certamente não estará. A única chance de felicidade, se possível, está dentro de você mesmo.
Não tem nada que gere mais sofrimento do que colocar no outro a responsabilidade da sua felicidade.
Na ilusão que certos formatos são mais seguros que outros, abdicamos de grandes e verdadeiros amores e depois só sobram aquelas histórias mal resolvidas, mal vividas, aquela lembrança incomoda do relacionamento que poderia ter sido perfeito um dia, mas não foi. Sabe aquela pessoa que você quer muito esquecer, mas não sabe porque não consegue?
Só vejo a possibilidade de exercer o amor baseado na amizade e no companheirismo, na cumplicidade, e principalmente, sem depender do outro e nem do formato da relação. Se relacionar com a pessoa do jeito que ela é, com presença e entrega, somente porque vocês assim o querem e se dão bem.
Viver com disponibilidade o que você sente que tem que ser vivido.
Viver o amor relativo a cada pessoa, no formato que for possível, como você já faz com seus amigos, familiares, filhos, só que aplicado aos amantes também.
A percepção que somos responsaveis pela nossa própria felicidade é libertadora. Gente que descobre como ser feliz, namorando ou não, são as que mais tem chance de exercerem um amor que não exige do outro nada além do que a troca digna.
Não rotular o amor e aventar a possibilidade de viver com quem se ama todos os papeis possíveis. É namoro, casamento, relacão aberta, poliamor? Que tal um pouco de tudo isso, tudo ao mesmo tempo?
E aceitando-se como são, únicos, indivíduos, afins, foram felizes para sempre...
Algo como almas gêmeas que se encontram e se fundem em um só novo ser. Não me surpreendem casais que acabam fazendo um perfil único nas redes sociais, renunciando sua individualidade para viver essa nova entidade que criaram ao se unir. Queremos do outro a nossa garantia de segurança.
Vivemos muito tempo sob uma grande repressão, a culpa pelo prazer e a descriminação da felicidade sem função social. Estamos caminhando lentamente para uma mudança nesse aspecto, tenho certeza que a criança que nasceu hoje terá relações sociais e amorosas diferentes das nossas, da mesma forma que ninguém mais deixa de casar hoje porque não é virgem. As coisas evoluem.
Ainda achamos o casamento uma coisa natural, mas temos que lembrar que o formato das relações são apenas construções sociais, não se baseiam em sentimentos, mas sim na capacidade de provedor do marido e no crescimento e organização da sociedade. Tradições islâmicas, por exemplo, aceitam a poligamia normalmente. O Corão determina que um homem pode ter até 4 esposas, mas somente se puder sustentá-las e tratá-las igualmente.
Cada país e cada cultura tem a sua regra padrão para relacionamentos sociais, mas, como brilhantemente resumiu Robert Happe, após suas viagens e pesquisas de anos sobre esse assunto, em vários lugares do mundo, todo ser humano é igual e o que deseja, independente de sua cultura ou costume, é amar e ser amado.
Na realidade, estamos expostos a diversos tipos de amor, não excludentes, de diferentes intensidades e formatos. O amor, em um sentido amplo, o amor entre parentes, entre amigos, tem importância porque faz com que o indivíduo se sinta menos desamparado.
Amamos nossos familiares, nossos amigos, nosso trabalho, nossos animais de estimação, enfim, a lista é grande. São vários amores, acontecendo simultaneamente. Por exemplo, amar meu pai não exclui também amar a minha mãe. Você pode me responder, mas eles são diferentes, são duas pessoas com funções diferentes na sua vida, por isso é possível amá-los ao mesmo tempo.
Eu te respondo: você tem razão. São diferentes, assim como são diferentes as pessoas que possa me relacionar amorosamente como homem-mulher, e claro, uma não impede o amor a outra.
O problema para o parceiro mal resolvido é que essa possibilidade de vários amores acaba gerando o ciúme, o medo de perder, o medo de ser preterido. A insegurança, quando no extremo, gera ciúmes de tudo e todos que a pessoa julga ter posse. Não tem gente que tem ciúme até de amigo?
Temos essa capacidade nata de amar várias coisas e pessoas ao mesmo tempo. Amar comer mousse de chocolate não me impede de amar comer Strogonoff. Tudo tem sua hora certa.
Amar muitas pessoas ao mesmo tempo é perfeitamente lógico e natural, mas não é aceito como uma coisa “normal” no amor romântico, onde temos que escolher uma só pessoa, essa é a regra aceita socialmente no Brasil e que nos foi condicionada desde pequenos, por diversas fontes.
Fechamos as nossas relações de amor em categorias, amigo não serve pra sexo, família não serve como amigo e assim por diante. Estamos falando aqui das regras, não das existentes exceções.
Mesmo sem dar conta, perdemos tempo precioso procurando o par ideal romântico, quase sempre inexistente e acabamos deixando de lado o que realmente importa: AMAR E SER AMADO.
Na ilusão de encontrar ouro no final do arco iris, saímos correndo ou abandonamos qualquer possibilidade de viver um amor que não seja o tal prometido nos livros e comerciais de margarina, na certeza que a felicidade estará em uma outra pessoa que me completa, minha alma gêmea.
Certamente não estará. A única chance de felicidade, se possível, está dentro de você mesmo.
Não tem nada que gere mais sofrimento do que colocar no outro a responsabilidade da sua felicidade.
Na ilusão que certos formatos são mais seguros que outros, abdicamos de grandes e verdadeiros amores e depois só sobram aquelas histórias mal resolvidas, mal vividas, aquela lembrança incomoda do relacionamento que poderia ter sido perfeito um dia, mas não foi. Sabe aquela pessoa que você quer muito esquecer, mas não sabe porque não consegue?
Só vejo a possibilidade de exercer o amor baseado na amizade e no companheirismo, na cumplicidade, e principalmente, sem depender do outro e nem do formato da relação. Se relacionar com a pessoa do jeito que ela é, com presença e entrega, somente porque vocês assim o querem e se dão bem.
Viver com disponibilidade o que você sente que tem que ser vivido.
Viver o amor relativo a cada pessoa, no formato que for possível, como você já faz com seus amigos, familiares, filhos, só que aplicado aos amantes também.
A percepção que somos responsaveis pela nossa própria felicidade é libertadora. Gente que descobre como ser feliz, namorando ou não, são as que mais tem chance de exercerem um amor que não exige do outro nada além do que a troca digna.
Não rotular o amor e aventar a possibilidade de viver com quem se ama todos os papeis possíveis. É namoro, casamento, relacão aberta, poliamor? Que tal um pouco de tudo isso, tudo ao mesmo tempo?
E aceitando-se como são, únicos, indivíduos, afins, foram felizes para sempre...
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