terça-feira, 23 de novembro de 2010

Os ensinamentos do velho Gasparian

Meu pai, tirando a minha infância, nunca foi uma pessoa muito presente fisicamente na minha vida. Falei mais com ele por telefone ou internet do que ao vivo.

Separou-se da minha mãe e foi se aventurar no norte do país, abrindo negócios em Rondônia. Também trabalhou com contratos de terra no Acre, coisa que, aparentemente, fazia e faz muito bem. Como advogado formado pela São Francisco, nunca seguiu carreira de verdade, tem no sangue de origem armênia o lado comerciante. Armênio já nasce fazendo negócios, se deixar, vende o berço.

Sempre o vi como uma pessoa muito inteligente, meu gosto pela língua portuguesa escrita e falada corretamente vem dele, o jeito para todo tipo de trabalho manual também. O sonho dele sempre foi ter uma oficina, coisa que meu avô não achava muito adequado. Até hoje reclama disso e deve ser um dos motivos de nunca ter reclamado do meu trabalho de DJ. Ele sentiu na pele o que é ter que abandonar uma vocação para agradar a família.

Meu gosto musical e a paixão pela tecnologia também foram diretamente influenciados por ele. Como estava sempre viajando pelo norte, sempre trazia de Manaus as maiores novidades em aparelhos de som. Na casa dele, sempre o som era o melhor e mais potente que existia e com ele sempre ouvi muitos sucessos da disco music. Lembro de ouvir discos da Donna Summer no máximo volume nos últimos modelos de caixas de som da Technics. Eu amava aquilo. Com o tempo comecei a mexer sozinho, gravar minhas fitas e aprender mais sobre como aquilo tudo funcionava. Foi amor ao primeiro remix.

Sempre andava em carros mega esportivos, ele chegou a ter uma Ferrari, num momento de devaneio. Aprendi a dirigir com ele, fazendo barbeiradas em um Passat TS e ele nunca ficou nervoso ao meu lado. Ensinando com calma e paciência, peguei segurança rápido e dirijo até hoje pensando no que ele me dizia: "Meu filho, o problema de dirigir é que nunca está sozinho na rua, tem que dirigir por você e pelos outros". Outra coisa que ele sempre falava é que os acidentes acontecem mais quando estamos mais devagar ou mais rápido do que os outros carros. Toda vez que saio pra rua, lembro das palavras dele e desde os 18 anos que não bato o carro.

Aprendi com meu pai a apreciar as mulheres de maneira intensa e respeitosa. Ele sempre teve uma visão apurada para descobrir mulheres bonitas, minha mãe foi uma delas. Temos tanta intimidade nesse assunto que já chegamos a conversar sobre detalhes que nem meu melhor amigo sabe. Minha postura na conquista e o jeito cavalheiro, servil e gentil vieram dele. As mulheres que eu me relacionei sempre repararam nisso. Eu nasci para servi-las, assim que eu aprendi.

Apesar de conquistador, meu pai nunca foi muito bom em separar mulheres interesseiras das mulheres com boa intenção e já penou muito com isso. Uma das ex mulheres o levou literalmente à cadeia por dinheiro, o que ele encarou como uma aula...para mim. Dizia que se o que ele passou servisse como aprendizado, já estaria feliz. Serviu, e muito.

Uma curiosidade que ele me disse uma vez, olhando para uma mulher que usava uma corrente no tornozelo, foi para estar sempre atento a isso. Mulher com esse adereço sempre tinha algo. "Ai tem, meu filho!" Nunca me disse exatamente que "tinha" ali, mas eu entendi, com o tempo, exatamente o que era.

Em Búzios, fomos a uma boate juntos, uma turma muito grande de amigos dele, alguns eram sócios do lugar. Eu, mega animado, apontei para um grupo de três mulheres lindas dançando e disse que ia falar com elas. Ele me puxou pelo braço: "Filho, mulheres muito bonitas em turma? Nem perca seu tempo, não querem nada com homem, estão competindo, não estão a procura de nada de verdade. Escolha sempre uma dupla de meninas que uma delas é visivelmente menos atrativa". Nunca falhou.

Uma outra coisa simples que ele dizia e que sempre lembro é viver sem brigar com os ditados populares. "Filho, se esses ditados populares resistem a tanto tempo e tanta gente falando, é porque são sábios". Como tudo que ele disse, seguindo os ditados populares, toda regra tem sua exceção.

Nasceu em família rica e nunca soube bem lidar com a perda do status que veio junto com a falência dos negócios do meu avô, que morreu em seguida e ainda deixou dívidas aos três filhos. Minha infância foi mágica, eu era o único a ter um mini carro a gasolina do bairro e andava de bicicleta dentro do meu quarto. A casa que moramos era incrível, o quintal gigante e sempre tínhamos animais de estimação para cuidar. Tenho só boas lembranças desse período.

Ele sempre amou cachorros e ama até hoje, tem vários na casa que mora, chega a chorar quando algum esta doente.

Aprendi com ele nomes de doenças e exames que nunca vou usar na minha vida, ele é o campeão do exame médico, hipocondria total, adora uma consulta. Eu acho graça disso tudo. No fundo, sua relação com doenças é tão caricata que é divertida. Detalhe, ele nunca tem nada, nem gripe.

Tenho muita saudade e sinto falta do meu pai por perto. Tive que aprender na marra a não ter a quem recorrer na hora do aperto com meu trabalho, já que minha mãe nunca aprovou o que faço. Ele continua morando longe e acompanhando minha vida à distância. Quando meu tio morreu, ele chegou para o enterro com um dia de atraso. Por causa disso, acaba sempre sendo o último a saber das coisas, já que não faz parte do meu dia-a-dia, mas sinto o carinho dele o tempo todo comigo.

Se ele estivesse agora ao meu lado, ganharia um abração de meia hora, um beijo gigante e saberia pela milésima vez o quanto é querido e amado.

Te amo meu pai!

2 comentários:

DJ Leandro Lima disse...

Tudo bom Ronaldo!
Cara, eu não fui criado pelo meu Pai, infelizmente ele foi uma pessoa ausente!

Mas como futuro Pai, quero ser um exemplo para o meu filho e apoia-lo em suas decisões!

Parabéns a essa linda mensagem!

Carol disse...

Eu queria só entender o que há de diferente nas mulheres que usam corrente no tornozelo... rs.