sexta-feira, 5 de novembro de 2010

E foram felizes para sempre...

No formato atual dos relacionamentos, baseado no modelo romântico, cria-se a expectativa que está no outro a responsabilidade pela sua felicidade. Buscamos no outro as promessas de amor eterno, exclusividade no desejo e a complementação das necessidades.

Algo como almas gêmeas que se encontram e se fundem em um só novo ser. Não me surpreendem casais que acabam fazendo um perfil único nas redes sociais, renunciando sua individualidade para viver essa nova entidade que criaram ao se unir. Queremos do outro a nossa garantia de segurança.

Vivemos muito tempo sob uma grande repressão, a culpa pelo prazer e a descriminação da felicidade sem função social. Estamos caminhando lentamente para uma mudança nesse aspecto, tenho certeza que a criança que nasceu hoje terá relações sociais e amorosas diferentes das nossas, da mesma forma que ninguém mais deixa de casar hoje porque não é virgem. As coisas evoluem.

Ainda achamos o casamento uma coisa natural, mas temos que lembrar que o formato das relações são apenas construções sociais, não se baseiam em sentimentos, mas sim na capacidade de provedor do marido e no crescimento e organização da sociedade. Tradições islâmicas, por exemplo, aceitam a poligamia normalmente. O Corão determina que um homem pode ter até 4 esposas, mas somente se puder sustentá-las e tratá-las igualmente.

Cada país e cada cultura tem a sua regra padrão para relacionamentos sociais, mas, como brilhantemente resumiu Robert Happe, após suas viagens e pesquisas de anos sobre esse assunto, em vários lugares do mundo, todo ser humano é igual e o que deseja, independente de sua cultura ou costume, é amar e ser amado.

Na realidade, estamos expostos a diversos tipos de amor, não excludentes, de diferentes intensidades e formatos. O amor, em um sentido amplo, o amor entre parentes, entre amigos, tem importância porque faz com que o indivíduo se sinta menos desamparado.

Amamos nossos familiares, nossos amigos, nosso trabalho, nossos animais de estimação, enfim, a lista é grande. São vários amores, acontecendo simultaneamente. Por exemplo, amar meu pai não exclui também amar a minha mãe. Você pode me responder, mas eles são diferentes, são duas pessoas com funções diferentes na sua vida, por isso é possível amá-los ao mesmo tempo.

Eu te respondo: você tem razão. São diferentes, assim como são diferentes as pessoas que possa me relacionar amorosamente como homem-mulher, e claro, uma não impede o amor a outra.

O problema para o parceiro mal resolvido é que essa possibilidade de vários amores acaba gerando o ciúme, o medo de perder, o medo de ser preterido. A insegurança, quando no extremo, gera ciúmes de tudo e todos que a pessoa julga ter posse. Não tem gente que tem ciúme até de amigo?

Temos essa capacidade nata de amar várias coisas e pessoas ao mesmo tempo. Amar comer mousse de chocolate não me impede de amar comer Strogonoff. Tudo tem sua hora certa.

Amar muitas pessoas ao mesmo tempo é perfeitamente lógico e natural, mas não é aceito como uma coisa “normal” no amor romântico, onde temos que escolher uma só pessoa, essa é a regra aceita socialmente no Brasil e que nos foi condicionada desde pequenos, por diversas fontes.

Fechamos as nossas relações de amor em categorias, amigo não serve pra sexo, família não serve como amigo e assim por diante. Estamos falando aqui das regras, não das existentes exceções.

Mesmo sem dar conta, perdemos tempo precioso procurando o par ideal romântico, quase sempre inexistente e acabamos deixando de lado o que realmente importa: AMAR E SER AMADO.

Na ilusão de encontrar ouro no final do arco iris, saímos correndo ou abandonamos qualquer possibilidade de viver um amor que não seja o tal prometido nos livros e comerciais de margarina, na certeza que a felicidade estará em uma outra pessoa que me completa, minha alma gêmea.

Certamente não estará. A única chance de felicidade, se possível, está dentro de você mesmo.

Não tem nada que gere mais sofrimento do que colocar no outro a responsabilidade da sua felicidade.

Na ilusão que certos formatos são mais seguros que outros, abdicamos de grandes e verdadeiros amores e depois só sobram aquelas histórias mal resolvidas, mal vividas, aquela lembrança incomoda do relacionamento que poderia ter sido perfeito um dia, mas não foi. Sabe aquela pessoa que você quer muito esquecer, mas não sabe porque não consegue?

Só vejo a possibilidade de exercer o amor baseado na amizade e no companheirismo, na cumplicidade, e principalmente, sem depender do outro e nem do formato da relação. Se relacionar com a pessoa do jeito que ela é, com presença e entrega, somente porque vocês assim o querem e se dão bem.

Viver com disponibilidade o que você sente que tem que ser vivido.

Viver o amor relativo a cada pessoa, no formato que for possível, como você já faz com seus amigos, familiares, filhos, só que aplicado aos amantes também.

A percepção que somos responsaveis pela nossa própria felicidade é libertadora. Gente que descobre como ser feliz, namorando ou não, são as que mais tem chance de exercerem um amor que não exige do outro nada além do que a troca digna.

Não rotular o amor e aventar a possibilidade de viver com quem se ama todos os papeis possíveis. É namoro, casamento, relacão aberta, poliamor? Que tal um pouco de tudo isso, tudo ao mesmo tempo?

E aceitando-se como são, únicos, indivíduos, afins, foram felizes para sempre...

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