Recentemente recebi a visita do meu pai, que mora em outro estado e vem para São Paulo uma vez por ano.
No diálogo dele a mesma frase de sempre: "É meu filho, eu já estou com um pé na cova e outro na casca da banana. Não há mais o que fazer, estou só esperando a vida acabar." Reclamando da vida, reclamando das ex-mulheres, dos problemas nos negócios, do fato de morar longe e principalmente, do meu desinteresse na continuidade de seus negócios. Tudo isso, naquele tom melancólico, de gente que sofre, mas sem nenhum motivo aparente.
Tudo isso, dito no restaurante ótimo que fomos almoçar juntos. Era para ser celebração, reencontro alegre de pai e filho que não se viam há tanto tempo, mas é só lamentação atrás de lamentação. Disperso, eu olho para as outras mesas, tudo lotado. Sentados ao lado, várias pessoas de todos os tipos e idades, todos com a mesma cara fechada e séria do meu pai, que continua resmungando à minha frente. Ninguém, absolutamente ninguém sorri. É impressionante.
Na mesma hora, começo a refletir sobre minha vida, minha alegria e meu jeito leve e positivo de encarar os problemas (sim, eu também tenho problemas) e chego a conclusão que algo está errado. Penso que devo estar perdendo alguma coisa. Porque só eu estou sorrindo aqui? Será que a vida é para ser sofrida? Será que perdi a referência? Será que devo me sentir culpado em ser feliz?
Entre uma piada para o garçom, que se diverte com minhas besteiras e um elogio ao cozinheiro, que imediatamente começa a sorrir, percebo que é possível ver o sorriso aparecer, com coisas muito simples, apenas com o afeto colocado em uma piada ou um elogio.
Nessa hora, volto minha atenção para meu pai e resolvo falar um pouco sobre a minha visão da vida, das minhas escolhas e do caminho que resolvi seguir...e, com surpresa, percebo que ele não quer me ouvir, só quer falar.
Comento sobre minha experiência com o Pilates e que o alongamento tem feito milagres para minha disposição e físico e o que escuto são só lamentos sobre sua pressão alta e o possível câncer em alguma parte do corpo (e toda semana é uma parte nova).
Com 70 anos nas costas, meu pai tem ainda um longo caminho pela frente. Sua idade, seu envelhecimento físico, não chega nem perto do seu envelhecimento psicológico. Ele se sente infeliz, mas não tem absolutamente nenhum motivo para isso. Tem dinheiro acima do suficiente para viver, ama e é amado por uma companheira, tem dois filhos muito bem criados e saudáveis, mora em uma casa espaçosa e confortável e, a seu contragosto, tem a saúde perfeita, confirmada por todos os exames que insiste em fazer toda vez que sente uma dor em algum canto. Nada, zero, resultados perfeitos.
Então, qual será o real problema dele? Me perguntei isso diversas vezes e até hoje não achei a resposta.
Ele se diz cansado, pressionado pela situação atual de sua vida. Diz que se sente velho. Talvez aí tenhamos uma pista sobre o real problema. Ele cansou sim, mas das cobranças da vida social. Ele ainda acha que precisa da aprovação dos outros para ser feliz, mas ele só precisa de auto-aprovação, e quem controla isso somos nós mesmos.
Ele acha que precisa dizer a marca de seu carro, precisa dizer que seu cartão platinum master super mega blaster não tem limite, precisa dizer o que tem. Clara vítima da mídia. Nem passa pela cabeça dele dizer o que é, como pessoa. Deve achar que é pouco.
Talvez ele nem desconfie que só precisamos da nossa permissão para sermos felizes.
Aprendi, com as aulas de teatro, a resgatar a criança dentro de mim. Aprendi a me fazer de ridículo, sem prejuízo algum, e com isso fazer alguém rir. Aprendi a rir de mim mesmo.
Nenhuma criança precisa de pose, nem de posses e nem de prestígio. Nem cartão de crédito sem limite.
Depois desse encontro com a minha criança, comecei a rejuvenescer, até fisicamente. Me permiti ser feliz fazendo o que gosto, sem culpas e sem preocupações com o que os outros vão achar.
Penso muito no meu pai e por conseqüência, penso muito como será a minha própria velhice.
Claro que aos 40 anos, meu corpo já não responde mais da mesma maneira de antes. Comidas pesadas pesam de verdade, exercícios extremos causam dores por todo lado no dia seguinte e o reflexo e a agilidade não são mais os mesmos, só que a cabeça continua de moleque. Me sinto jovem e sei que isso não vai mudar tão cedo.
Me permito ser uma pessoa feliz e me sentindo jovem.
Quando será que meu pai vai se permitir?
Assinar:
Postar comentários (Atom)

3 comentários:
você deveria levar um papo sobre isso com ele ;)
A frustração vem exatamente de ter tentado muitas vezes levar um papo, mas ele não ouve. Não quer ouvir. ;o)
Amém!
Suas palavras são mágicas, sua visão da vida é transformadora.
Coincidentemente venho me interessando pelo Pilates, e vc o citou, o que me deu incentivo para buscar o bem-estar físico também!!!
Vc sempre será meu Guru, com todo o respeito que tenho pelo Arly.
Sua coluna é minha oração diária. Por favor, não pare de se inspirar...
E agradeço sua dedicação pelo assunto! Adorei a abordagem, e assim como não devemos ter medo da morte, a velhice nunca deve ser motivo de limitação para SER FELIZ!!!
Só tenho a agradecer: obrigada, obrigada, obrigada!!!!
Beijo grande,
Pupila
Postar um comentário