sábado, 3 de janeiro de 2009

Tudo por um pouco de paz

Nessa passagem de ano, tive a oportunidade de entrar em contato, bem próximo, com um dos pilares de nossa sociedade: a família e seus filhos.

Pude presenciar a batalha que é cuidar de crianças, todas cheias de mimos e vontades. Eram três filhos de cada casal, seis crianças e ainda mais uma convidada, sete no total.

Os pais, se desdobrando em dez, tentando aplacar a agitação da prole, inventavam atividades, brincadeiras e ao mesmo tempo, cuidando das coisas largadas pelo chão, da educação e boas maneiras, do banho e da alimentação de todos, como super-homens e mulheres maravilha a serviço da dita “felicidade” e educação de seus filhos.

A eles não pode faltar nada, sob pena de culpa eterna na consciência dos pais, pois se um filho der errado, a culpa será dos pais, invariavelmente.

Hoje, crianças e igrejas estão na moda e não existe melhor maneira de ser aceito na sociedade se você tem filhos e está com as suas contas (literalmente) em dia com Deus, mas sobre religião falaremos em outra oportunidade.

Meu foco aqui é na relação dos pais com filhos.

Imaginava ver uma relação saudável, com respeito mútuo e explícitas demonstrações de afeto entre os pais, que criam seus filhos com harmonia e paz, mas o que eu vi esses dias todos foi completamente o oposto. Pais que se desafiam e competem entre si, com troca de piadinhas sobre “mulheres desejáveis e bonitas” que viram no último filme que assistiram juntos ou sobre o quanto o marido ganha menos que aquele seu ex-colega de faculdade que deu certo na vida.

A troca de farpas é constante. Em todos os casais casados.

No meio desse tiroteio, crianças gritando e chorando, correndo de um canto para outro, tentando atrair um pouco da atenção que os pais um dia lhe deram, mas que hoje virou só um conjunto de regras enorme para enquadrá-lo bem à sociedade e garantir seu sucesso.

No canto, esses mesmos pais, na ausência rara dos filhos, se atrevem a confessar para mim, um solteiro sem filhos, que estão cansados, estressados e gostariam de um momento sem os filhos, para finalmente poderem descansar. Se declaram cansados.

Eu vi bem como é isso! Se nem o meu descanso foi possível, imagine o deles. Passei os dias enfiado nos livros, com fone de ouvido na orelha, tentando um pouco fugir de toda aquela barulheira e bagunça.

Criança é naturalmente hiperativa, mas criança filha de pais em atrito, inseguros, competindo, somam ao excesso de atividade um comportamento inseguro e tentam o tempo todo, chamar a atenção a si, nem que seja fazendo xixi na cama, como uma delas fez.

Eu tentando manter a calma, sem dizer nada, só observei. O máximo que fiz foi comentar o quanto era interessante conviver tão de perto com aquela realidade tão distante da minha vida.

Foi mesmo muito interessante esse período de observação. Reparando bem nas crianças, com seus iPods, bolsas e roupas e grife e toda sorte de produtos, vi o quanto o consumo se incrustou na vida delas. Fiquei pensando qual seria a hora que esses casais fazem sexo, já que levam os filhos para dormirem no quarto junto com eles. Vi também sua necessidade por um momento de paz, quando a mãe joga ao pai a responsabilidade sobre o filho gritando e o pai entediado levanta da cadeira para não ficar “mal na fita” com os anfitriões. Foram diversas outras situações similares.

Enquanto os pais, cheios de expectativas, esperam que seus perfeitos filhos, com QI acima da média, vençam na vida e façam mais sucesso que eles próprios fizeram, geram um ambiente de extrema competição e insegurança. Torcem pela felicidade dos filhos, mas na verdade, estão cobrando caro por essa felicidade. Eles exigem essa felicidade dos filhos, demandam que sejam felizes. Indicam aos filhos seus moldes de “sucesso na vida”, afinal eles sabem onde seus pais erraram e dessa vez não vão repetir o erro com seus próprios filhos.

Não repetem, é verdade, criam novos erros.

Atrelada a essa criação, junta-se a informação recebida pela TV e a escola, ferramentas de doutrinação e domesticação. O filho rebelde começa a se enquadrar aos moldes sociais e começa assim a preparação de indivíduos bem adaptados ao mercado de trabalho. Na escola ensinam a todos a pensarem igual, serem iguais e pacificamente aceitarem as regras. Pensar diferente é ser rebelde, o bonito é ser igual.

É a perfeita fábrica de adultos imbecis e sem pensamento próprio.

Os mesmos adultos que serão os perfeitos futuros pais para a próxima e prodigiosa geração de consumidores e fiéis.

Amém.

2 comentários:

Anônimo disse...

Oi tudo bom?
É muito bom ler seu blog, seus textos são bem diferentes do que eu constumo ler, metade das pessoas que comentam meu blog geralmente falam "miguxês" e eu acabo não entendendo nada...
Sinceramente eu adoro festas de final de ano, não sei bem se a harmonia em tudo seria perfeito, eu não gosto muito da perfeição, a palavra parece certa mas se você parar pra pensar no que é perfeição, vira uma bagunça. É engraçado ver aquela agitação no fim do ano, aqui não tem mais crianças, mas todos eles parecem ter uns 12 anos de idade, brigam por besteira, falam muuita besteira, mas isso acaba sendo lembrado como uma pequena besteira que na verdade nem precisava ser lembrada. Pra mim a vida precisa de tudo isso, seria chato passar o dia feliz, 24hrs por dia perfeitamente feliz, de bem com todo mundo, em harmonia, talvez a harmonia seja tão boa por ser rara.
Beijos

Lulis disse...

Nossa Rô, sei bem o que é isso... identifico muito essas situações, principalmente essa competição babaca entre casais. O modelo básico é ser bem sucedido, bem casado, ter filhos bonitos, bem educados e bem vestidos. Pelo menos da porta para fora... Não quero julgar a vida de ninguém, mas meu desafio é simplesmente SER FELIZ, realmente. Não pensar no que os outros pensam ou deixam de pensar das minhas escolhas, criar filhos que sejam livres, independentes, criativos e claro, bem educados. E percebo que quanto mais eu consigo viver a minha vida fora do "ideal", mais as pessoas que eu me importo me respeitam. Te amo primo! E te respeito muito. Beijo.